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Eterna é a noite que dá descanso aos poetas e aos amores escritos

Eterna é a noite que dá descanso aos poetas e aos amores escritos, como gritos malditos, escrevemos poemas em tranças, rendilhados, só nós sabemos que letras e pensamentos colados lá estão, vendidos,a metro, sem conserto alguns, desacertos da mente, ou não, apenas trocados.

Só quem escreve sabe o que escreve ou para quem escreve, não adianta adivinhar, pensamento de escritor é assim mesmo, estertor da alma quando está dorida, quando rejubila, quando ama ou desama, quando sais a rua e é dia, e não é, é noite, breu, definhar, ou apenas é um lusco fusco ténue de esperança, que a vida que nos lê, não seja mais vida parida.

Mas escritor também sofre de amor, dor, falta de fé, desconcerto até de sentir apenas a cor na escrita, escritor é a mão na caneta, escreve como um cometa que atravessa o planeta por seu próprio pé, sem pedir licença para entrar no pensamento do comum cidadão, aquele que a horas certas toma o seu café, lê o seu jornal, viaja de pé nos transportes públicos, sem se sentir observado, por nós , o da mente seu parasita.

Ser escritor é ser vadio, ter a alma num corropio quase sempre, mesmo quando diz que está sem inspiração, ele caminha, divaga, faz bolas de sabão onde não existem, faz arco-iris onde só existe fumo e degradação, sonha, imagina, salta pula e dança como uma criança, e ri sozinho tipo macaquinho de circo quando algo sai, quando nem o frio ou a chuva o retrai e pelo contrario tudo serve para escrever, quando embalado vai.

Depois existem os outros, os pseudo, os da treta, os do plágio esse contágio que cada vez mais prolifera, que nem sei que se possa chamar, dão duas ou três larachas para o ar e faz-se um filosofo da escrita, um douto senhor, doutorado em letras de cor, o rabo na cadeira agita e pronto lá sai uma alarvidade bera, uma ou outra frase de um escritor, e altera-se a forma e fica uma beleza, ninguém repara e a coisa fica bem dita.

O nosso mundo, o daqueles que pensam pela própria cabeça, que sabem onde está sem a apalpar, sabem em que pensamento se situar para escrevinhar, sem ser preciso ir ver dicionários, frases de escritor de pensamento vivo, copiar, palavras lavradas por gente de dias e horas sentadas, que nascem já observadores de coisas, gestos, formas de estar,somos esses, os estranhos, os que adoram ser assim, que pedem respeito, porque se não tens jeito, cresce, lendo um livro.

© O Inquilino 69 Letras 2017

Sabes e cheiras a primavera!

 

Já a primavera me sabes, negra, com que te iluminas, nos braços com que te pintas, carregas flores de pétalas abertas, na alma carregas toda a liberdade, toda a força com que te minas, para enfrentar as adversidades do dia a dia, vontade de descobertas.

Já de primavera me enfrentas, rebeldia, mar revolto por de momentos, fogo que trazes no corpo escondido, olhar repleto de ondas de prazer, quadro com que me pintas, tentas, deixas-me embevecer em tormentos, foragido em teus braços, compassos de espera, dias de conhecer e ler.

Já de primavera descansas, em meus braços quando me alcanças e ficas no ar, riso, sorriso, gargalhar às vezes e consigo gargalhar também, poetisa das cores, palavras mansas no corredio da vida, tanto somos dois, como um só corpo a pairar, lado água, lado de poesia que tens e eu bebo de um só trago, tuas são minhas cores.

Já de primavera me tens, fotografas o que há de melhor em mim, cobres-me de giestas, poemas homéricos, grafonolas e danças que me ensinas, alcanças e descolas, voando, pousando em meu peito quando me deito, vaticinas dias de preto e branco, festas, porque é assim que me vês, a duas cores, amores de cinema, poema em lume brando.

Já de primavera cobres meu outono, dono nunca serei, nem teu rei, xadrez, mulher rainha, moves as tuas peças com força e mestria, ganhar não existe, existes tu, vida, no tabuleiro,  da noite fazes dia, teu calor subsiste de alma liberta que meu coração conserta numa adivinha, difícil de desvendar, mas que tu consegues entrar, pintas e eu escrevo, poema meu, teu marinheiro.

Já de primavera teus olhos, são todos os campos descobertos, grutas e mares cobertos de fundos coloridos, céu, Marte e os Anéis de Saturno te cobrem, como capas que abrigam teu corpo, eu fico, em ti, quando me chamas, quando pela alma me clamas, porque sentes-te poisar, como uma asa descolar, para me abraçar todos os sentidos, eu fico, sempre que queiras, sempre que te abeiras, devagar pé ante pé, bailarina em pontas, eu e tu, duas almas tontas.

© O Inquilino 69 Letras 2017

 

Boa esposa, boa mãe, boa cozinheira e escrava do lar | Woman’s day | XXI

Levantar muito a custo, porque o fim de semana não chegou para descansar,
roupa arrumar, casa limpar, dos miúdos tratar, para a mulher o tempo não é justo,
na hora de deitar, a mais velha doente, não deixou o sono estabilizar,
o mais pequeno, segue a mana também, ficou quente e o remédio não vai chegar,
ir a farmácia a correr comprar, levantar já cansada, desta vida pesada como veneno lento a matar.
Levantar, banho a pressa tomar, toca a levantar, marido já saiu o café foi tomar e o vazio,
fica por ali a pairar em segundos, porque mulher não tem segundos, vê a vida correr a fio,
sair da banheira gelada, porque a filha precisa despachar e o miúdo a escola levar,
cabelo arranjado a pressa e maquilhagem pesada, para esconder as olheiras de uma noite tragada,
a filha não se levanta, o miúdo não quer ir e sentada na cama, convencer ambos a sair, chora,
baixinho para que não notem, para que não se voltem e a vejam chorar, o coração que no seu peito mora,
fica a soluçar, baixinho, sempre baixinho, não vá alguém despertar e ver que coração de mulher também chora.
Sair para a rua, já fora de horas, sem demoras transportes apanhar, atrasada como sempre, o ponto vai picar,
fim do mês, mais dinheiro a descontar, nunca chega, vestido novo vai ser para adiar, festas, nem pensar,
café com amigas, á pressa e sem tempo para falar, trabalho, vestidos curtos nem vale a pena levar,
patrão é daqueles que mais tarde ou mais cedo a vai assediar, focar, sempre focar no trabalho sem hesitar.
O dinheiro é curto e o trabalho para as mulheres é trabalho a dobrar, cansada, novamente cansada,
e hoje o trabalho que tarda, liga para o marido para ir buscar as crianças, não pode é dia de mudanças no café,
é preciso ajudar, por lá vai ficar, copos e petiscos, até rebentar, a mais velha que vá o pequeno buscar,
não se sente bem, sabe que tem de ser ela a dar conta do recado, mais uma vez o jantar vai ficar atrasado.
Correr, sempre a correr, a vida não a viu crescer, já nasceu mulher, tornou-se naquilo que a mãe quer,
boa esposa, boa mãe, boa cozinheira, boa escrava do lar, foi assim que a quiseram ensinar,
cansada, ao infantário antes do fecho conseguiu chegar, tem multa para pagar, desespera a vida não a espera,
megera a vida que a martiriza tanto, salva o amor aos filhos, sem cadilhos, seu calor, sua vida, seu manto.
Dar banho, ver se a febre já baixou e o medicamento a tempo e horas tomou, a mais velha já está no quarto,
adormeceu, não comeu, fazer levantar, para jantar, a loiça lavar, a cozinha limpar, arrumar, todos deitar,
sentar no sofá descansar, adormecer ao som das ondas do mar na televisão, levantar, deitar, o edredão puxar,
os olhos fechar e a porta a bater, marido voltou a beber, gritos no ar, crianças a acordar, novamente soçobrar,
que fazer, não sabe mais que fazer, deixar-se ficar e morrer, devagar, lentamente, ausente, ficou, tempo findou.
Levantar, mais velha trabalhar, mais pequeno na avó ficar, hoje a namorada nova do pai vai chegar, há que bem comportar.
 

© O Inquilino 69 Letras 2017

A casa | Texto escrito por: Inquilino 69 Letras

Esta semana uma amiga disse me sobre a mudança de casa, ” que não ficasse triste, porque são só coisas “. Pois bem, essas ” coisas “, têm para mim mais importância do que algumas pessoas. As ” coisas “, têm cheiro, têm memórias, têm paredes com choro, gritos, lavar de alma, corpo e até paladar têm. Foram nessas ” coisas ” que escrevi muito dos textos, que aqui publiquei, entre quatro paredes ou fora de quatro paredes, sentimentos. Uma casa tem história, tem vidas passadas e vidas presentes, tem memorias de pessoas presentes e ausentes, tem crescimentos, tem tudo o que fez parte da nossa vida durante determinado tempo.

Passei por diversos hotéis enquanto vivi nela e nunca um hotel por melhor que fosse me soube tão bem, como o cheiro do regresso a casa, ao aconchego da cama, a minha cama. Foram nestas janelas cheias de ” coisas ” que a vida lá fora, me trouxe cor e a transportei cá para dentro, as arvores, os risos, os abraços e os beijos, os recém casais, as gravidas, os bebés, as crianças os jovens e os adultos, tudo passou pela minha janela, a chuva, o vento, o sol que espreita logo pela manhã num bom dia, os temporais que adoro quando me assombram a janela do quarto e me deleitam a escrita numa revolta apressada, como se o mundo acabasse naquele momento. Uma casa compõe-se de nós, tem o nosso cunho pessoal, cresce connosco, acompanha nos no silencio e quebra-nos na solidão, faz nos companhia.

De todas as ” coisas ” que mais vou sentir falta é sem dúvida das recordações, quer boas ou quer más, estão lá, metidas entre quatro paredes, vou fazer o obséquio de as levar comigo porque ela deixa, mas um dia será como um rosto que se vai atenuando com o tempo, ficam réstias de rosto, os olhos talvez, ou talvez a boca, como uma porta ou uma janela. Serei o mesmo, mas não serei mais a ” coisa ” que invadiu aquelas quatro paredes. Vou ter saudades, das vozes que por lá passaram, dos convívios, das gargalhadas.

A vida é uma recordação ténue de uma série de ” coisas “, mas as ” coisas ” ficam, os corpos esses um dia serão ” coisas ” inertes.

Quem sabe um dia, se corpo será cinza e da cinza será casa, de  ” coisas cheias ” num retorno ao cheiro que outrora foi meu, gravado entre quatro paredes. Uma certeza apenas, como disse uma vez ” A saudade é um lugar com história ” e eu, já tenho saudades do meu lugar. 

O Inquilino #69Letras 

Girassol | Escrito por: Inquilino 69 Letras

Em cada passo que dava, todo o chão contemplava,

erguia se sobre a terra, como se planasse em voo rasante,

coração de leão e alma de gigante, que em sua alma encerra,

seria menos homem porventura, seria menos sol de pouca dura.

Não, não seria, se de coração amava, Roma e Pavia não se fez num dia,

tomara que os dias findassem em mar de lava incandescente,

escorreita como a boca, que de deleite se sente, ele vivia novamente,

no cheiro a pétalas de Girassol, cada pétala cada sol, mãos na giesta, boca vadia.

Em cada passo que dava, ela pontilhada de estrelas o passo estacava,

debaixo do ulmeiro, enquanto o sol descansava, sentava-se a ver a lua,

corpo de mulher alvo, arlequim que da noite faz não e do dia faz sim,

em paz,  deitada e no calor da noite velada, com uma túnica apenas, encobria sua pele já nua.

Pelos dedos, ele decorava as estrelas uma a uma, como se um dia a cegueira o cobrisse,

mesmo como se sentisse, que sua pele era um mar de espuma, onde navegava desconhecido,

palavras dissesse ela ao ouvido, para se guiar como um farol, luz que alumia o fundo onde seu corpo ruma,

beijos cobriam-na a passo de caracol, húmida língua na humidade de um corpo por sinais varrido.

Guardado seu interior como uma sentinela, devagar se arqueja, seu corpo no dela,

dança no ventre suado, deveras já relaxado para o receber, abre a porta do inferno que o acolhe,

sentinela sem quartel guardado, sente ao inferno descer, perdendo-se de olhos fechados na beleza do pecado,

passo acelerado balbucia, meu bem, meu tornado, vou teu corpo prender, alma perdes sem medo de a viver.

Debaixo de um ulmeiro, no silêncio da madrugada, perdeu-se o diabo nas mão de uma fada,

no Olimpo inteiro, já Zeus boquiaberto empunha uma espada, raio e trovão que se agita e berra,

maremotos e cascatas agridoces, anunciam o clímax final, olhos postos no azul celeste, acaba a guerra,

Girassol sorriso, peito liberto, almas presas de um novo céu descoberto, pétalas viçosas, povoam a terra.

Tempo do tempo, sol se ergue em duas mãos entrelaçadas, debaixo de um ulmeiro á sombra deitadas.

 

O Inquilino #69Letras

 

 

A cabana | Por: Inquilino 69 Letras

Os pés limpos no tapete de entrada,

cheiro a madeira de sândalo exalada,

como se tivesse sido sempre uma quente morada,

ao fundo uma lareira que crepitava ao som de lenha queimada.

Duas velas encimadas num castiçal dourado,

sonho imaginado, casacos despidos, lá fora um frio gelado,

numa cama, um edredão de penas, abraço consumado,

pele de animal em cobertor aconchegado.

Na mesa, morangos, papaia, manga e chantilly,

repasto de sabor doce, beijo agora e aqui,

com um dedo descai o soutien, quadro de Dali,

pintado com a boca, numa vontade louca de sabor a ti.

Uma grafonola antiga, talvez muitos sonhos de ser ainda rapariga,

dois corpos que se amam devagar, numa jarra, corpo de espiga,

teatro de sombra chinês, ás duas por três, no telhado que nos abriga,

confundem-se posições, gestos, uniões, nada que se diga.

Para quê falar ? Se dois corpos suados do cheiro de se amar em cama deitados,

voam para além do lugar, já não estão lá, mas no olhar fechado de um no outro,

entranha-se na pele, no pensamento delegado, raiz de cerejeira, mesa de cabeceira,

papoila, sossego em meu peito deitado, mão no ombro, descanso consolado.

Abalada de mão dada, um olhar para trás, porta de madeira fechada,

passos calmos na neve que se formou durante a madrugada,

sorrisos cúmplices de dois braços dados à desfolhada,

amor consumado, infinito prazer, face afagada, meu agradecimento, meu obrigada.

Sonho de cabana no bosque, amor, vida, sabor a mente apaziguada.

 

O Inquilino #69Letras

” Os encalhados ” por: O Inquilino

Dedico este texto aos ” Encalhados/as “, aqueles que já viveram um grande amor e que pejorativamente chamam por este nome, apenas porque estes, não abdicam de viver menos do que aquilo que já viveram e conheceram no amor até aqui. Nós os ” bichos do mato “, ” os esquisitos ” ” os outsiders “, doravante denominados ” os “, sem distinção de sexo, apenas por uma questão de encurtar as palavras. Somos os que não vivem amores tipo pastilha elástica, mastigados, os que não vivem amores de ” post-it ” que cai por terra ao primeiro sopro.

Dedico aos que se prezam ao silencio tal, que conseguem ouvir o romper das flores quando nascem ou o som das pétalas a abrir quando o sol nelas desponta logo pela manhã. Somos, os que não piam tipo pássaro de rapina na busca do acasalamento com a primeira fêmea que abana a cauda á frente do nariz. Somos, os que têm tempo para contemplar o nascer ou o por do sol na sua quietude, sem ser preciso ir a correr de mão dada dar uns beijos apressados, porque temos tempo para contemplar o mundo que nos rodeia e toda a natureza no seu esplendor. Somos, os que escrevem, porque escrevemos com a alma dorida das mágoas vividas, ou esperançosas, ou até das alegrias e tristezas dos outros, porque somos amigos, porque estamos lá quando nos ligam para desabafar, quando o vosso namoro não corre bem ou desvanece, ou simplesmente não é amor, somos nós. Somos, aqueles que não levamos com a dor de cabeça porque o sexo é fraco ou repetitivo ou porque simplesmente se deitam e engolem as lágrimas ocultas, soltas no silêncio da noite, no nosso silêncio  ” escuro” que vos dá brilho e alento.

Não meus amigos, este texto não é para aqueles que sabem o que é um grande amor, esses não precisam de palavras.

Nós os ” encalhados/as “, somos aqueles que estamos quando precisam, que não vivem o amor de mentirinha, que queremos mais, sempre mais, somos exigentes, não nos contentamos com migalhas quando já comemos muita côdea.

Nós os ” encalhados/as “, somos o amor na sua forma quase perfeita se é que existe tal porque somos a espera, porque é de nós, que na sua grande maioria sai o amor mais puro, mais duradouro na entrega, os que sabem qual a altura certa para amar. Encalhados/as, são todos aqueles, que vivem eles mesmo encalhados nas escolhas erradas com um pavor tremendo da mudança.

 

O Inquilino#69Letras