Não somos super heróis!

Nem sempre o dia começa ou acaba como imaginamos. Marca-se um jantar, uma ida ao cinema, um jogo de futebol ou uma noite de filmes no sofá com direito a pipocas, mas o telefone toca… E se não tocar, ao longe ouve-se o som da sirene que provoca sempre aquele arrepio.
O dever chama e fica tudo para trás, o jantar , o futebol, o cinema, os amigos, a familia, o sossego de um dia ou noite que tinha tudo para ser normal.
No caminho até ao quartel a adrenalina começa a correr nas veias. E depois não há tempo para pensar em muito. No quartel já se ouvem os carros a trabalhar, à nossa espera. Já se vê os colegas a correr num ritmo frenético para nada ser esquecido. Outros a correr para trocar de roupa, calçar as botas e pegar no material de proteção que é necessário.
Até que corremos para o carro que nos levará ao inferno. É uma palavra forte, bem sei, mas acreditem que o é.
Temos um equipamento especial para combate a incêndios que não é um fato de super herói. O calor é de tal forma infernal que sentimos a pele quase a queimar por baixo da roupa. Passamos horas a fio num combate sem tréguas, tantas vezes mal ou pouco alimentados e hidratados. É um esforço desumano passar 12, 20, 30 horas nesta luta desigual. São noites sem dormir, descanso pouco ou nenhum, o calor, o desgaste…
É devastador não conseguir vencer as chamas e vê-las levar o que as pessoas demoraram uma vida a construir. Arriscamos tanto para salvar o que não é nosso, mas lutamos como se fosse! Às vezes corre bem, outras vezes nem por isso e aí temos que correr atrás do prejuízo. Nesse momento nem se pensa… Quando temos que fugir por baixo de um mar das chamas, quando temos que tomar uma decisão de “vida ou morte”, quando o fumo já não nos deixa ver nada e respirar já se torna dificil, quando olhamos para trás e até as mangueiras já arderam.
Não procuramos agradecimento pelo que fazemos, eu pelo menos vejo as coisas assim. O que me custa mesmo é quando nos criticam, sem pensarem que por baixo da farda vermelha e azul existe uma pessoa.
Uma pessoa! Que tem a família preocupada em casa à espera do regresso. Que deixou tudo para ajudar sem olhar a quem. Que está ali a dar o seu tempo em troca de nada. Que por vezes já está num nível extremo de cansaço e nem assim baixa os braços.
Continuamos sempre, apesar de tudo.
Não somos super heróis, mas temos que agir como se fossemos.

 

Muita força para todas as famílias que perderam os seus entes queridos.

©Raio de Sol 2017 #69Letras

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