“Esta sociedade não está para velhos”

Quando temos um público passamos a ter uma responsabilidade acrescida, a de não só o entretermos e ser a sua companhia como de os sensibilizarmos para os problemas sociais.

Utilizando o nome do filme: “Este país não é para velhos” adapto-o para o assunto deste texto:

“Esta sociedade não está para velhos”

Sim estou a utilizar a palavra velhos que tal como os trapos é assim que são tratados. Deixam de ser úteis e causam estorvo.

Estas palavras são duras não é? Dura mesmo é a realidade das pessoas idosas, essas sim, caem no esquecimento, andam por aí sozinhas, sem cuidados carinhos e atenção.

Não há palavras para destacar todas as situações com que tenho sido confrontadas e que me deixam fragilizada e com o sentimento de que tem de haver algo que eu possa fazer para mudar isto. Sinto-me tão negligente ao assistir a esta realidade e nada fazer quanto os que abandonam os idosos à sua sorte (ou falta dela neste caso). Alguém se sente assim?

Do outro lado do vidro que me separa de uma realidade tão triste e solitária, todos os dias, no banco em frente do meu local de trabalho aquele senhor bebe pelo menos 3 l de vinho (fora o que eu não vejo), acaba o pacote e se tiver num dia bom vai a coxear e coloca-o no lixo, se tiver num dia não atira o pacote para onde calhar. De volta e meia alguém chama o INEM, tal estado alcoólico em que se encontra impedido de se mexer, e lá vai ele para o hospital. Para onde vai ele depois de sair do hospital? Todos os dias, este mesmo senhor vai marcar lugar naquele mesmo lugar. E replete o ritual de beber vinho como se não existisse amanhã. Não há ninguém responsável por este senhor? Ou devo dizer velho já que roto pela idade cai em desuso e não tem qualquer utilidade? Terá família? Se sim, foi bom para ela? Se foi onde está o retorno do amor que um dia deu? Se foi um mau marido ou pai, está a pagar por não ter tido cabeça?

Ou simplesmente não tem ninguém? Mas ninguém? Nem um parente afastado ou um velho amigo e vizinho? Onde estão as pessoas da vida daquele senhor? Não deveríamos ter direito à companhia e aos cuidados?

A vista do meu escritório não é assim tão grande e ainda assim capto demasiadas situações indignas da condição humana que me deixam a pensar o que é que posso fazer? Mas fazer o quê? Ligar com quem? Policia? Bombeiros? Inem? Se sim, como é que eles lidam com estas situações? Continuo a ver este mesmo senhor todos os dias num ritual perigoso… para a sua saúde.

Hoje, pela manhã um senhor todo curvado numa cadeira de rodas que nem conseguia falar encontrava-se na rua em frente. Observei-o procurando se estava acompanhado e após algum tempo apercebo-me que o estava sozinho… como é que é possível? Não se tratava de alguém “só” com incapacidade motora e discernimento mental! Nada disso, o senhor já carregava o peso da saúde e da idade e lá andava ele em marcha atrás pela calçada fora… fiquei vê-lo desaparecer… a quem pertencia o dever cívico? A quem vê? Mas a quem reporto?

A 4 metros do meu escritório, numa das horas de almoço em que fui arranjar o cabelo um senhor com alguma idade foi arranjar os pezinhos. A profissional de estética começou aos vómitos e a dizer que não conseguia executar o trabalho e a pedir desculpa mas que naquelas condições era incapaz. Fiquei a pensar: “será que cheira assim tão mal dos pés?”, ao que me apercebo enquanto as meninas do cabeleireiro falavam entre si, que o senhor se tinha borrado. Sim isso mesmo, o senhor borrou-se todo e não deu conta. As meninas tentaram saber se tinha telemóvel, identificação, onde é que morava, mas o senhor (que ficamos a saber mais tarde pelo INEM) teve um AVC naquele instante no cabeleireiro. Foi para o Hospital e lá devem ter conseguido comunicar com os familiares…ou alguém, mas ali naquele instante em que tudo sucedeu ninguém sabia nada dele. Deu-lhe ali mas podia ter acontecido no meio da rua, numa esquina qualquer…

Que negligencia ou que vida é esta onde não temos tempo para estarmos presentes na vida daqueles que simplesmente, envelhecem? O que é realmente importante hoje? Envelhecer parece um crime e coitados daqueles que envelhecem e perdem as faculdades mentais.

Sabem, a minha mãe é auxiliar de geriatria, explicando melhor trabalha com idosos ou velhos (depende da forma como os tratas ou como os vês… (…) ).

Ela explica que são bebes grandes, fazem disparates, mal andam, devem ter uma alimentação de acordo com a sua saúde, ou que os dentes (ou a falta deles) lhes permitem; são pesados, usam fraldas e precisam do amor e carinho.

A minha mãe, que leva 25 anos disto é uma mulher que fala alto, muito alto. Diz ela que são ossos do oficio, os idosos ouvem mal e ela adequou-se à sua audição e assim ficou. Brinca com eles e dança com eles. Não são da sua família, mas dá-lhes o amor que os familiares não dão e cria afeto. E em 25 anos, é vê-los a chegar, ganhar amizade e vê-los partir… e assim, de tempos a tempos uns dão lugar aos outros…

Sabem em que altura morrem mais idosos? Do Outono ao Ano novo; o primeiro dizem que tem a ver com o cair da folha, o segundo com a época em si e as suas energias.

Sabiam que há idosos que fazem a mala a contar em ir passar o Natal a casa com a família e que depois ninguém os vai buscar?

Sabiam que há filhos que no máximo visitam os seus pais uma vez ao mês e que acham que é mais do que suficiente? Sentem-se de missão cumprida como a que quem cumpriu a sua obrigação. Acham-se melhores do que aqueles que os abandonam… Obrigação…. Passar uma hora num mês com quem os criou… Ah os netos às vezes também vão, mal dão um beijo aos avós… que laços são estes?

E que exemplo dão os pais aos filhos para quando chegar a vez deles envelhecerem?

Isto é um ciclo.

Nada disto reflete o espelho de todo este problema. Esta é só uma visão daquilo que uma só pessoa vê. Fico a pensar, quantas mais situações, também vocês tropeçam?

© ?Cátia Teixeira, Vizinha 69 Letras 2017


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