DESAPARECESTE no mar… nunca mais te vi.

Sonho. Conseguimos finalmente encontrar a casa dos nossos sonhos. Foi ao acaso que tropeçámos nela na internet. Já tinha perdido a esperança de encontrar algo que me arrebatasse da mesma forma que fizeste comigo no momento em que entraste na minha vida. Comigo é assim, ou o cupido me lança uma rede como se eu fosse um peixe e depois bem presa me atira uma seta, ou não vale a pena. Tem de ser extasiante como se ficasse sem ar e dependesse disso para respirar. Era aquela, a nossa casa.

– É isso mesmo. Marca visita! – Disseste tu entusiasmado.

 

Acordei sem energia nenhuma naquela manhã, adormeci numa ansiedade exponencial com diversos ataques de pânico vindos sabe-se lá de onde. Vi todas as horas a passar no relógio e revirei vezes sem conta o corpo na cama. Não conseguia respirar. Não conseguia desligar e não tinha nada em concreto a tocar na minha mente. Aquele dia não estava a começar bem.

Saí da cama a cambalear, com muito custo e paciência ele conseguiu fazer-me saltar da cama e preparar-me o café da manhã. Nunca me vou cansar de todos os dias beber o primeiro café do dia tirado por ti, e enquanto te olho pela cozinha vejo que é algo que adoras fazer para mim. Tenho sorte. És o meu tal, sei disso desde o primeiro instante.

 

Não sabia quem é que ia conquistar quem. Se a casa a nós ou nós a ela de tal maneira que nos arranjámos! Ele estava lindo, super elegante com aquele colarinho azul claro a roçar-lhe na barba… bolas sou mesmo tolinha por ti.

Seguimos viagem, pelo caminho, ouvimos as musicas do costume e ouvi-o eu também a cantarolar. Adoro é das coisas que mais gosto de fazer com ele, sair por aí e escutá-lo a cantar. Adoro a sua voz, gosto ainda mais do calor que sai daquela boca…

 

O GPS indicava 14minutos até ao local da visita. A vista que já alcançava já me deixava deliciada, se do meu lado direito tudo era verde, arranjado e clean, do meu lado esquerdo tudo era azul e com o dia que estava não conseguias compreender onde acabava o mar e começava o céu. Lindíssimo.

 

Duas curvas, e ali estava ela, imponente parecia descansar sob duas colinas como se estivesse apoiada. E no meio ela surgia, moderna, branca, em linhas retas desenhadas pela regua; tudo o resto era verde como se fosse uma capa que descia até ao mar. Não existiam muros nem vedações parecia um espaço ilimitado, um pequeno jardim do Éden moderno para habitar.

O consultor imobiliário que acompanhou a visita era muito simpático e parecia que se ele pudesse que comprava aquela casa, a cada divisão dizia o que alterava ou que uso lhe daria, salão de festas, sala de ioga….

Escusado será dizer como mulher que adora cozinhar que o espaço que mais importância dei foi à cozinha. Bancada enorme à meia lua com disposição para a sublime e azul vista; bancada central com fogão; tudo muito clean e funcional. Não consegui não esconder o meu entusiasmo ao ver tamanha cozinha e já a imaginar-me a experimentar novas receitas e a criar novos pratos. Sempre gostei de cozinhar, mas o facto de amar alguém que aprecia e gosta de comer é qualquer coisa de viciante e motivador.

Ele perdeu-se na sala. Metade era envidraçada; grandes janelas todas a exibir o mar dentro do conforto daquela casa, sublime. Eu sabia o que ele já estava a magicar, onde colocar o sofá e a área até à parede para compreender o tamanho da televisão a ser colocada. Adoramos estar no sofá seja em que estação for aninhados uma tarde inteira a ver filmes.

 

Segui com o consultor imobiliário para o exterior ficando o meu amor para trás. Para mim basta-me olhar para me encantar, ele, precisa de sentir nas mãos, a qualidade e a textura das coisas. Isto fez-me lembrar das suas grandes mãos a desviar a minha roupa só para sentir a minha pele…

 

De uma colina à outra, atravessava uma ponte, linhas direitas sem uma vedação ou muro a limitar o piso em direção ao vazio, que curvava saindo da linha térrea  passando por cima do mar. Lindo para passeio e namorar ao amanhecer ou escurecer. Imagino as cores lindas que seriamos capazes de ver todos os dias.

 

Era um sonho. Não havia nada a apontar, nenhuma desculpa para não a comprarmos. Estava no orçamento e assentava como uma luva aos nossos desejos.

O local era recolhido, o acesso quase restrito e estávamos longe da confusão, da poluição e principalmente das pessoas. Conforme os anos iam passando, cada vez mais nos virávamos para nós enquanto pessoa individual e por sua vez para nós enquanto casal. Parecíamos um mundo, como se fossemos o melhor destino para se viver e habitar! Cada um de nós tem os seus hobbies e as suas paixões e a cidade parecia que nos roubava energia e foco. Não podíamos continuar assim, a sermos intoxicados  pela pretensão da cidade estava na altura de termos o nosso refugio.

 

Ele sai do interior da casa para o exterior e se as suas expressões já eram de felicidade então agora expandiram-se ainda mais, fazendo com que ganhasse um brilho no olhar diferente que só ainda o vira uma vez. Foi no nosso casamento enquanto entrava na igreja a caminhar na sua direção; aquele olhar escuro colou em mim, detalhou cada movimento meu e as mais belas juras de amor foram ditas assim… no silêncio daquele olhar.

 

 

Ele sai extasiante, roda o corpo vendo ao redor a beleza daquele lugar, caminha, caminha no meio de tanta surpresa e beleza, mas aquele pé fora do sitio, aquele caminhar cego por ali, levou-o para o vazio.

 

Caiu da ponte e da desapareceu no mar.

 

Só me lembro de ficar sem ar engolir em seco e cair sobre os joelhos. Tenho quase a certeza que não falei, que não chorei, que não pensei, foi como se com o que tinha acontecido a minha alma tivesse sido arrastada com ele, deixando-me ali num estando catatónico, recolhida e incapaz.

 

Lembro-me dos meses que se seguiram; das silhuetas que suponho queriam dar-me apoio e ajudar-me, mas não me lembro de nenhum rosto em partilhar, é como eu digo, no momento em que tu foste também eu fui. Lembro-me daquele quarto com uma janela pequena e uma mobília antiga e pesada, lembro-me daquele candeeiro de luz amarela bastante fusco. Estive na casa de alguém por tempos indeterminados mas não me recordo de quem…

 

© 👠Cátia Teixeira, Vizinha 69 Letras 2017

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