A três

Acordei agitada!

Não consigo dormir. Este calor não me deixa dormir. Não é o calor. Estou inquieta. Volto-me para um lado, volto-me para outro. Destapo-me! Ele, ferrado no sono, não dá por nada. Levanto-me da cama… Saio do quarto e olho para o relógio que está na parede. Ainda é de madrugada.. São sensivelmente 5h40 da manhã.

Vou até ao WC, refrescar a cara. Volto para o quarto e deito-me na cama. Ele continua a dormir… Deitada, deixo-me consumir pelo meu pensamento. Pensamento esse que não me deixa dormir, que me tira o sono. Perturba-me!

É hoje. Não posso deixar de lhe contar.

Não posso deixar que este pensamento me continue a atormentar. Se eu sou culpada, não sou a única. Ele também tem quota parte nisto. O que hei-de fazer? Como lhe hei-de contar? Tenho medo da sua reacção. Tenho medo que ele não aceite. E se estes receios não passarem disso mesmo?

“Ah… estás a ser tola. Ainda não lhe contaste e já estás a sofrer por antecipação.”, pensei eu.

Talvez esteja, mas a verdade é que estes pensamentos me deixam inquieta e com um nó na garganta, tão grande que nem me apercebo que ele despertou e está fixamente a olhar para mim. Estou a suar… A suar como se estivessem 40 graus no quarto. Ele olha-me com um ar preocupado. Pergunta-me o que se passa, ao que respondo que não é nada. Não ficou nada convencido e soube logo que lhe estava a esconder algo. Comecei a chorar. Agarrou-me e puxou-me para ele. Abraçou-me! Viu que eu estava assustada. Tentou acalmar-me, mas quanto mais ele falava, mais eu chorava. Não podia continuar a ser egoísta e a guardar aquela angústia só para mim. Ele merecia saber a verdade. Merecia que eu lhe contasse algo que me perturbava significativamente. Mas o receio da sua reacção não me deixava falar.

Correspondi o abraço e apertei-o com força.

Acabei por adormecer, agarrada a ele. Aquele abraço tinha sido o suficiente para me acalmar…por breves instantes. Mas esta angústia que assolava os meus pensamentos, não me largava. Trespassou para o meu sonho. Sonho?! Não… Pesadelo. Pesadelo esse que confirmou a minha teoria. Ele não iria aceitar. Sabia de antemão que a nossa relação estava condenada. Mas não poderia continuar a esconder-lhe isto.

Se o amava, ele teria que saber a verdade.

Uma relação não poderia ser baseada na mentira e na falta de confiança.

Ele mostrava confiar em mim e, eu, não correspondia nessa confiança…por medo. Passei a mão no rosto dele, chamando-o pelo nome. Acordou sobressaltado!

Viu que o meu rosto continha a mesma expressão assustada, mas percebeu que eu iria ser sincera com ele. Percebeu que algo me amedrontava, mas deixou-me falar sem pronunciar qualquer palavra. Era o momento. Era aqui que iria perceber até que ponto ele me amava… Até que ponto eu o amava… Até que ponto a nossa relação teria futuro. Comecei por gaguejar nas primeiras palavras. Comecei a enrolar-me no meio da conversa e notei na expressão dele uma certa impaciência. Continuava com medo… Com medo que tudo terminasse ali, naquele instante. Às tantas, fechei os olhos, contei até três, respirei fundo e disse:

– Estou grávida…

Senti um misto de emoções. Alívio e medo eram as sensações mais fortes. Abri os olhos, olhei para ele, e vi-o com as lágrimas nos olhos. Estava perplexo a olhar para mim. Nos primeiros segundos, fiquei a olhar para ele à espera da sua reacção. As lágrimas escorriam-lhe. Agarrou-se a mim, com uma força que não me lembro ter sentido antes e só conseguiu pronunciar:

– Obrigado.

Senti nesse mesmo momento que os meus medos e angústias tinham sido absurdos, que ele desejava muito essa criança. Que o tinha ali, que o amava, tal como ele me amava e amaria este novo ser.

V.

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