Rotinas

Um dia, alguns meses atrás perguntaram-se durante uma entrevista se teria capacidade de escrever um texto, um texto onde conseguisse ter um início, um meio e um fim, mas todos os meus contos assim o são, mas não queriam um conto, queriam uma realidade escrita com os pontos todos.

Sinceramente nunca percebi a ideia de se escrever, compreendo o escritor que passa meses a criar algo que nunca foi lido, que tem interesse, provocação dos sentidos e depois de publicados vendem milhares de livros e ganham algum dinheiro, eu não escrevo nesse sentido, escrevo porque gosto de deixar a alma falar por mim, será que é a mesma coisa, não faço ideia, não dá para alongar muito uma coisa que quase parece um filme pornográfico, o conteúdo é sempre o mesmo e não existem sequer longas-metragens de filmes desse género, pois cansa ver tanta acção.

O que é escrever muito e prender a atenção das pessoas, o que é escrever um texto que seja partilhado milhares de vezes por milhares de pessoas diferentes, será que é preciso que esses milhares de pessoas se identifiquem com a mensagem? Tipo 50 sombras? Gostava de saber quantos homens leram esse livro, cálculo que sejam mais mulheres a comprar esse livro, mulheres que se identificam que se calhar é preciso mais um pouco na sua vida intima, mais amor, mais sexo, mais prazer, e que a rotina de certa forma deu cabo.

A rotina da cabo de todas as relações, dá para fazer aqueles escapes a dois quando se poupa uns trocos e se arranja alguém para tomar conta dos miúdos, abalar uma sexta-feira ao fim do dia rumo a hotel qualquer num sitio romântico, perto de uma praia qualquer, porque as pessoas vão para se reconhecerem enquanto casais enamorados, e não enquanto pessoas que se vão conhecer e dar umas “quecas“, vivemos num mundo cada vez mais exigente, as profissões que se dizem de oito horas diárias nunca o são, sair a correr do trabalho para ir buscar os miúdos, chegar a casa, meter o jantar no lume enquanto se pergunta pelos trabalhos de casa e se tenta meter os miúdos fartos da escola a fazerem os trabalhos de casa enquanto eles querem mesmo desanuviar e meter-se na frente da televisão e porque não mexer na consola, e distraírem-se um pouco, o pai chega um tempo depois, dá um beijo fugaz na mulher, atira-se para a casa de banho para tomar um duche rápido, torna a vestir-se a vai ajudar a esposa a preparar o jantar, pôr a mesa, controlar os miúdos que teimam em não fazer os trabalho de casa e tentam ligar a televisão para se distraírem, a esposa toma o seu banho a correr, e mal se acaba de vestir, decide que as crianças podem fazer o seu intervalo na banheira, todos a tomarem um banho antes do jantar, e com isso passam duas horas a correr onde as conversas não fazem qualquer sentido e o casal apenas trocou um beijo desde que chegou a casa.

Eu sei que as prioridades mudam quando se tem filhos, mas o namorar é preciso e eu costumo dizer que na vida existe tempo para tudo, mas sabemos muito bem que as coisas não são assim, a rotina amassa relações, desliga pessoas umas das outras, a falta de tempo de um para o outro, um beijo não é o suficiente para saciar o apetite do amor, e mesmo quando se vão os dois deitar exaustos, deveriam mimar-se, namorar e fazer amor, mas estão de tal forma esgotados, que se deitam e adormecem sem vontade demais….

Sobra o mês de férias, as férias que deveriam dar para o casal namorar e viver, mas não, mesmo nessa altura, e caso não tenham família por perto, têm os miúdos e têm de criar actividades para os miúdos se distraírem e acabam por passar um mês onde o amor são uns beijos de fugida, onde possa haver um pouco um pouco mais que um beijo mas sempre a controlarem as crianças, a rotina mata o amor, e nem é preciso serem casais com filhos, eu vejo a minha antiga relação como um exemplo perfeito do que é deixar a rotina dominar a vida, e quando as coisas assim são, as pessoas esgotam-se mais facilmente, a pilha do amor dá azo aos conflitos mais banais, do porquê não se pôs o lixo na rua, coisas tão banais, existem muitas mais, as pessoas devem mentalizar-se cada vez mais que somos seres imperfeitos que na medida certa e com a pessoa certa se completam, e que a máxima na vida existe tempo para tudo, tem mesmo de haver tempo para tudo, tem de haver um fim-de-semana romântico para os dois de tempo a tempo e não é de seis em seis meses, é imperativo quebrar as rotinas, as rotinas matam tudo em seu redor, basta comer “Macdonalds” todos os dias ao pequeno-almoço, almoço e jantar e certamente que a saúde irá pagar uma factura bem casa. É imoral ser fiel a rotinas, mas ainda assim, existem outros exemplos… Os meus pais casados há mais de trinta anos, com rotinas capazes de abalar tudo e todos, permanecem juntos, apaixonados, odiados, mas felizes, já passaram por tanto e por tanto mais vão passar, e se os fosse avaliar num nível de stress, o deles é na casa dos quatrocentos por cento, acordam juntos, trabalham juntos e dormem juntos, e o stress de fazerem tudo juntos faz com que existem mais explosões, tipo um diz mata e outro diz esfola, mas no entanto estão ali unha e carne, apaixonados como o primeiro dia, e criaram um casal de filhos.

Onde raio é que a rotina falhou com eles, não sei, não me perguntem…. Deixo a duvida, será que realmente a rotina estraga a vida de um casal? Será só apenas isso….

Bom, eu apaixonei-me pela minha ex namorada, tínhamos ao inicio 100% de compatibilidade, mesmos gostos, tudo era mágico, tudo era lindo, com o tempo as coisas foram mudando, afinal não gostávamos das mesmas musicas, dos mesmos filmes, dos mesmos livros, e aos poucos fomos gostando menos um do outro, entre nos conhecermos  e começar a namorar pouco tempo passou e passados poucos meses estávamos a viver juntos, grande parte da nossa separação, a culpa foi inteiramente minha, eu sou um homem muito complicado incapaz de controlar as minhas explosões, sou um bicho-do-mato no seu estado puro, eu se pudesse, prendia-me numa jaula e mandava a chave fora e metia um aviso, não aproximar, animal perigoso, esta é a minha avaliação de mim, o facto dela estar bem melhor sem mim, deixa-me feliz, ela segue em frente, na sua viagem, e eu algures parei no tempo, não estou a fazer nenhuma instrospectiva de onde errei ou onde errei, porque é simples responder a isso, errei, ponto final.

As coisas ficam mais fáceis quando se assume que se erra, que não se é perfeito e quando as coisas não correm como se espera, a culpa é da rotina, é tão fácil arranjar culpados…. Mas depois olho para os meus pais e penso… Onde está a culpa deles serem felizes?

Somos pessoas muito complicadas que vivemos num seculo muito complicado, e nos esquecemos que na vida existe tempo para tudo… Basta querer….

E muitos esquecem-se disso….

Bom domingo.

 

Carp Diem

 

©NMauFeitio 2017 #69Letras

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