Relato de um romântico em recuperação | Rubrica: Conta-nos a tua história |

Relato real para a página 69 Letras

 

 

Ele foi bafejado pela sorte logo à nascença. Filho único duma família bastante abastada.

O berço de ouro no entanto não lhe poupou a uns quantos desgostos da vida. 

Perdeu a mãe demasiado cedo num trágico acidente de carro envolvido em demasiada polémica na praça pública. 

Limitado a uma vida numa redoma de vidro, a sua única companhia na infância era a dos professores privados, da criadagem da casa e de seu muito amargurado e infeliz pai. 

Escusado será dizer que as épocas festivas lá em casa não eram muito animadoras. 

Aos 12 anos, finalmente o pai cedeu em pô-lo num colégio privado juntamente com outros adolescentes. Foi o momento mais feliz e cansativo da vida dele. Recorda como foi extasiante conhecer tanta gente nova num só dia. 

 

Fiz questão de conhecer os 32 alunos, os 18 professores e os auxiliares todos daquela instituição até ao pessoal das limpezas. Nunca tinha conhecido pessoas fora dos muros da propriedade dos meus pais. Foi uma loucura! Absorvi  tudo naquele primeiro dia de aulas. Até os cheiros de cada um…

 

Lembra-se  que nessa altura já recebia muita atenção feminina. Depressa aprendeu a levar os bolsos cheios de gomas e de pastilhas. Fazia sucesso entre as miúdas mais gulosas.  E das gomas às rosas e caixas de bombons foi um instante. Assim a atenção feminina aumentava e tornava-se mais ousada.

Tão ousada quanto o facto dele ter perdido a virgindade, não com uma mas com 4 raparigas na sua cama. 

 

As miúdas não me largavam. Fui assediado na casa de banho da escola, enfiavam-se na limusina que me levava de volta a casa depois das aulas e o telefone não dava despacho a tanta chamada. 

 

Tinha tudo para ser feliz! Dinheiro, popularidade na escola e um pai que pouco a pouco despertava para a vida. 

 

Eu vi meu pai chorar a morte da minha mãe demasiado tempo. Impressionava-me. O amor que ele trazia no peito por alguém que já não ali vivia, era no mínimo assoberbador. Ele preservava o lugar dela à mesa, as roupas no closet e todas as recordações dela espalhadas pela casa até ao jardim. 

Olhando para trás, acho que nunca cheguei a sentir muito a falta dela. Estava tão presente. 

 

Ao entrar na faculdade tudo se intensifica. Já não se deslocava de limusina mas sim de descapotável e além das excelentes notas, a medicina estava-lhe no sangue, tinha um círculo enorme de amigos e namoradas que se sucediam umas às outras. 

Numas férias perdeu-se. 

 

Bebi uns copos a mais numa festa num clube restrito a sócios. 

Eu tinha consciência de que estava a exagerar na bebida. Mas supostamente estava com amigos. Paguei as várias rodadas de bebida para os meus supostos amigos. Ainda fui puxado para a casa de banho por uma suposta amiga para uma rapidinha entre supostos amigos coloridos. (risos) Mas isso foi antes de eu colapsar no chão. Caí redondo no chão, no meio dos meus supostos amigos e ninguém me ajudou. Ninguém! 

Acordei no chão encharcado da minha própria urina e sem ninguém que me ajudasse a levantar. 

Jamais me esquecerei da humilhação. Estava sozinho. 

 

A solidão tinha-lhe batido à porta e não era uma sensação bonita… 

Sentiu-se miseravelmente desconfortável, como um mero mortal pela primeira vez.

Os dias que se seguiram foram de pura introspeção. Não falava com ninguém. Nem com seu pai.

 

Meu pai bateu-me à porta do quarto um dia. Estava preocupado comigo.

Claro que lhe disse para não se preocupar. Mas ele só me respondeu, que havia estado ausente demasiado tempo mas que agora estava ali para ser pai caso o desejasse. Fartei-me de rir, ironicamente claro. Não percebi na altura ou não quis ver que estava alguém a tentar me chegar a mão.  Respondi-lhe que era tarde demais. E ele só me respondeu, nunca é tarde de mais para amar, quem ama preocupa-se, quem ama sofre.

 

Concluiu os estudos e no dia da formação tinha o seu pai orgulhoso na plateia a aplaudir.

E foi somente naquele momento que se lembrou que seu pai, também estava sozinho. Não porque quisesse mas sim por força das circunstâncias. Bateu-lhe uma saudade inexplicavelmente no seu peito. Fazia-lhe falta os aplausos da sua mãe. 

Conforme o tempo ia passando, cada vez lhe parecia mais fúteis as relações amorosas em que se envolvia. Inconscientemente procurava amor… 

 

Procurei aquela ligação que o meu pai mantinha e tanto estimava com a mulher da sua vida, minha mãe,em quase todos os rostos bonitos que se cruzavam comigo. Mas quis o destino que eu me apaixonasse por uma paciente. 

Fiquei rendido à sua beleza logo no primeiro olhar. Mas infelizmente era uma doente terminal… Daquelas que acompanham uma história de muita luta contra uma das grandes pragas deste século. O cancro

 

Ele forçou-se a si próprio várias vezes afastar-se mas o amor ocupou o seu coração e não o largava.

Ela era tudo o que ele procurava numa mulher. Inteligente, divertida, um pouco libertina até. Mas iluminava o seu mundo como nunca ninguém o havia feito. 

 

Amor à primeira consulta era a nossa private joke

 

Ela procurava um médico que aceitasse o facto de ela ter desistido dos tratamentos. 

 

Questionei-a porque tinha desistido de viver. Pelo menos foi isso que eu pensei. Se ela tinha desistido dos tratamentos, não tinha mais desejo por continuar viva. E esperei uma resposta como já tinha ouvido tantas vezes mas de outros pacientes. Cansaço físico e mental, saturação, dores insuportáveis, os vómitos constantes e o mau estar… 

Mas não. Ela simplesmente me respondeu que era por querer viver de verdade, que queria deixar de fazer tratamentos. 

E eu não tive outra alternativa senão concordar com ela. 

 

E a partir daí tornaram-se inseparáveis. Claro que no início, era tudo em nome da ciência. Ele fazia questão de acompanhar cada passo na fase final dela.

Não tardou muito até o primeiro beijo surgir. 

Lembro me perfeitamente do nosso primeiro beijo. Diferente de todos os outros beijos da minha vida. Faltou-me o chão. Senti as tais borboletas de que falavam nos romances. Foi intenso. Mas porém suave. 

Jurei-lhe amor eterno. Não me arrependo, apesar da dor toda que iria vir a sentir depois. 

Viajaram muito e sempre de mãos dadas. Estavam dispostos a fazer tudo o que lhes viesse à cabeça. 

Até conhecê-la nunca se tinha afastado da  bata branca e do estetoscópio mais que dois dias seguidos. Pois juntos viajaram 3 meses cheios de emoções e intensos.  

Em conversas,  sempre honestas entre os dois, comentavam o fato de não sentirem falta de casa ou dos seus pertences outrora indispensáveis, telemóvel, etc. 

De hotel em hotel, de cidade em cidade, sempre com analgésicos atrás, pois foram a única coisa que ela não prescindiu, sempre unidos e felizes até ao dia que ela pediu, do nada, voltar para casa. 

Eu apercebi-me  logo do que se avizinhava. E cedi à vontade dela. Foi tudo muito rápido na minha cabeça mas os familiares dela insistem em dizer-me que tudo durou uma semana… 

Aqui foi o ponto em que ele deixou de me olhar nos olhos diretamente enquanto me contava a sua vida. 

O ar pesado era um contraste enorme em relação à pessoa que eu conhecia. 

Suponho que ele nem se apercebeu das lágrimas que lhe caíram pelo rosto. 

Ela assim que chegou a casa, deitou-se e nunca mais se levantou. Nem para ir à casa de banho. 

Perguntou-me se eu queria ficar. De imediato disse que sim e não larguei a cabeceira dela um minuto que fosse até ao último suspiro dela. 

Ainda hoje não percebo como é que ela não se desfigurou um pouco que fosse. Incrível! Ela permanecia aquela face de anjo que sempre teve. 

Sei que algures durante aquela semana perdi a percepção dos dias e das noites. Mas lembro-me bem que foi à noite que ela me prometeu algo. Eu perguntei-lhe se ela queria mais qualquer coisa para as dores antes de adormecer e ela disse-me que não. E  eu insisti, custava-me  saber que ela iria ter dores quando eu tinha tudo ali à mão. E ela abriu os olhos, acariciou-me a cara e disse… (silêncio) 

” Prometo-te que não vai doer muito. “

Eu fiquei sem perceber na altura. Como ela fechou os olhos, seu corpo continuava a respirar e caiu num sono rápido, não percebi o que ela quis dizer com aquilo mas também não lhe perguntei. 

A verdade é que eu também estava cansado fisicamente e adormeci ao lado dela quase de seguida. 

Foi a mãe dela que me acordou no dia a seguir e a chorar me agradeceu por tê-la adormecido. Juro que olhei para a senhora, com ar de parvo, e lhe disse que o fazia com muito gosto todos os dias. 

Mas ela insistiu a agradecer-me e a chorar cada vez mais compulsivamente e foi quando me apercebi que a minha querida estava gelada nos meus braços. 

A partir daí não me lembro de muita coisa que te possa contar Steel, desculpa. Mas lembro-me duma dor que me impedia raciocinar. Nada me acalmava. 

Do funeral só me lembro de em vez de flores, pus fotografias da nossa viagem na campa dela. 

Meu pai nunca me largou um segundo que fosse. Mais do que ninguém ele sabia o que eu sentia. 

Sei que lhe pedi perdão, por ter sido injusto para com ele uns anos atrás. 

O amor Steel, quando é verdadeiro, dói. Dói muito e até nos cega. Paramos de viver quando nos abandona. 

O meu amor já partiu à 3 anos e não me esqueço. 

Se continuo à procura dum novo amor? Claro que sim. Mas aquele… Jamais esquecerei. 

 

 

©Miss Steel 69letras 2017 


 

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