Primeiro amor….

Ouve-me meu bem, deixa o meu coração falar-te, escuta-o, ouve-o com a atenção que o nosso amor merece. Aprecia cada batida, cada entoação sentida, cada gemido abafado, cada sussurro partilhado.
Ouve-o meu bem, cerra esses olhos mendigos que me estremecem quando tocam nos meus, e abre o teu coração de menina, pois só assim poderás absorver cada palavra por ele proferida. Ouve-o com atenção, com ternura, pois serão sentidas essas palavras que te direi.
Sabes, meu bem…
És o meu sonho de menino, era contigo que eu sonhava noite após noite enquanto que o João Pestana não invadia a minha cama, e me embalava por entre as nuvens de algodão. És o meu tesouro escondido, que eu escondia secretamente no bolso de trás das calças, junto à pastilha elástica de mentol, quando me transformava no Tom Sawyer nas mil e uma brincadeiras que eu fingia ter com o seu inseparável amigo, Huckleberry Finn.
És o meu saco de berlindes dourados, aquele que eu guardava no cofre secreto tapado pelo fecho eclair da sacola da escola. És o meu primeiro beijo. És a miúda resmungona e ranhosa, que teimosamente, todos os dias, corria livre no recreio da escola e atravessava o nosso jogo de futebol provocando a algazarra geral.
És o meu primeiro soco, aquele que me fizeste dar para defender a tua honra perante aquele brutamontes do quarto ano, e que me valeu um orgulhoso olho negro, que sem chorar desfilei pelo recreio da escola no meio das gargalhadas dos outros.
Sabes, meu bem…Podíamos ter sido tudo.
Tu e eu podíamos ter conquistado o mundo de mão dada, eu de boné, de pala voltada para traz, e tu, agarrada a mim, com aquele vestido florido de margaridas, enquanto que juntos cavalgávamos para o por do sol no meu cavalo de pau.
O que nos aconteceu? …Sabes?
O que mudou em nós para além dos meus caracóis loiros que cresceram, e que se tornaram escuros, e depois lisos, e que por fim já sem caracóis, caíram para darem lugar a este que hoje sou, sem sonhos, nem vontades de aventura, e sem lembranças dos nossos longos Verões de outrora,  mas ainda com o teu cheiro a Jasmim cravado em mim para todo o sempre.
O que mudou? …Consegues dizer-me?
Sinto-me perdido neste mundo que não desejei, que não imaginei, que nunca li nas aventuras do Mandrake e do Patinhas.
O que é feito de nós?…
Sabes, meu amor…?
Queria pedir-te apenas, que se algum dia te perguntarem por mim, responde com ternura por favor, com a mesma ternura que coloco em cada palavra que te falo, em cada olhar que trocamos, em cada silêncio que partilhamos, neste mundo só nosso que teimamos a inventar a cada dia.
Conta a todos, bem alto, sem reservas, o quanto nos amamos em segredo, a juras de amor eterno que fizemos com os dedos entrelaçados, em figas, …. conta por favor, o frio que sentiste na barriga quando pela primeira vez os nossos lábios se tocaram, ainda que imóveis e petrificados pelo medo. As borboletas que sentimos, o sorriso depois do medo que partilhamos, as noites que depois disso não dormimos.
Conta…. sem reservas, por favor, que um dia nós, meninos inocentes, vivemos o nosso primeiro amor….
©PSassetti #69Letras

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