Presa

Ela era uma mulher, como tantas outras mas no entanto já não se sentia feminina.

Foi-lhe roubada, no entanto, fora ela quem ficou presa. Encarcerada na sua mente perturbada. 

Alguém lhe roubou a sua identidade, o seu ADN, tudo aquilo que a distinguia das outras mulheres.

Violada.

Humilhada.

Diminuída…

Ao perguntar-lhe o que ela sentia, simplesmente me respondeu; NADA.

Nada? Toda a mulher em mim indignou-se, revoltou-se! Lembro-me até de ter pensado que ela estaria ainda fora de si, apesar de me relatar o seu destino de há uns anos atrás.

Como? Como não se sente nada quando nos roubam o ser!

Mas olhei para ela, com olhos de ver. Se é que me faço entender. Tentei descortinar o pensamento por detrás do olhar. E arrepiei-me toda. Fiquei sem um pingo de sangue na minha alma.

Não vi NADA. Somente um vazio frio e cru de quem não tem nada na alma mesmo.

Não consegui impedir uma lágrima de cair no meu rosto cheio de empatia por aquela mulher de frente. Acariciei-lhe o rosto. No meu coração só me apetecia abraça-la, confortar de alguma forma o lado humano daquele ser, se é que lhe ainda restava.

E dela recebi de volta NADA, o espirito já tinha abandonado aquele corpo.

Fiquei sem saber mesmo o que fazer. Bom, fiz o que melhor que sei fazer. Ofereci-lhe um abraço e um ombro.

Já que não posso apagar de sua memória os horrores vividos e na pele sofridos, ofereci-lhe o melhor que outro ser humano pode oferecer.

Compreensão do meu coração aberto, a amizade sincera do meu peito e uma mão para segurar as suas tristezas e más experiências da vida.

Sejamos mulheres ou homens, somos todos seres humanos.

©MissSteel 69letras 2017

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