Boa esposa, boa mãe, boa cozinheira e escrava do lar | Woman’s day | XXI

Levantar muito a custo, porque o fim de semana não chegou para descansar,
roupa arrumar, casa limpar, dos miúdos tratar, para a mulher o tempo não é justo,
na hora de deitar, a mais velha doente, não deixou o sono estabilizar,
o mais pequeno, segue a mana também, ficou quente e o remédio não vai chegar,
ir a farmácia a correr comprar, levantar já cansada, desta vida pesada como veneno lento a matar.
Levantar, banho a pressa tomar, toca a levantar, marido já saiu o café foi tomar e o vazio,
fica por ali a pairar em segundos, porque mulher não tem segundos, vê a vida correr a fio,
sair da banheira gelada, porque a filha precisa despachar e o miúdo a escola levar,
cabelo arranjado a pressa e maquilhagem pesada, para esconder as olheiras de uma noite tragada,
a filha não se levanta, o miúdo não quer ir e sentada na cama, convencer ambos a sair, chora,
baixinho para que não notem, para que não se voltem e a vejam chorar, o coração que no seu peito mora,
fica a soluçar, baixinho, sempre baixinho, não vá alguém despertar e ver que coração de mulher também chora.
Sair para a rua, já fora de horas, sem demoras transportes apanhar, atrasada como sempre, o ponto vai picar,
fim do mês, mais dinheiro a descontar, nunca chega, vestido novo vai ser para adiar, festas, nem pensar,
café com amigas, á pressa e sem tempo para falar, trabalho, vestidos curtos nem vale a pena levar,
patrão é daqueles que mais tarde ou mais cedo a vai assediar, focar, sempre focar no trabalho sem hesitar.
O dinheiro é curto e o trabalho para as mulheres é trabalho a dobrar, cansada, novamente cansada,
e hoje o trabalho que tarda, liga para o marido para ir buscar as crianças, não pode é dia de mudanças no café,
é preciso ajudar, por lá vai ficar, copos e petiscos, até rebentar, a mais velha que vá o pequeno buscar,
não se sente bem, sabe que tem de ser ela a dar conta do recado, mais uma vez o jantar vai ficar atrasado.
Correr, sempre a correr, a vida não a viu crescer, já nasceu mulher, tornou-se naquilo que a mãe quer,
boa esposa, boa mãe, boa cozinheira, boa escrava do lar, foi assim que a quiseram ensinar,
cansada, ao infantário antes do fecho conseguiu chegar, tem multa para pagar, desespera a vida não a espera,
megera a vida que a martiriza tanto, salva o amor aos filhos, sem cadilhos, seu calor, sua vida, seu manto.
Dar banho, ver se a febre já baixou e o medicamento a tempo e horas tomou, a mais velha já está no quarto,
adormeceu, não comeu, fazer levantar, para jantar, a loiça lavar, a cozinha limpar, arrumar, todos deitar,
sentar no sofá descansar, adormecer ao som das ondas do mar na televisão, levantar, deitar, o edredão puxar,
os olhos fechar e a porta a bater, marido voltou a beber, gritos no ar, crianças a acordar, novamente soçobrar,
que fazer, não sabe mais que fazer, deixar-se ficar e morrer, devagar, lentamente, ausente, ficou, tempo findou.
Levantar, mais velha trabalhar, mais pequeno na avó ficar, hoje a namorada nova do pai vai chegar, há que bem comportar.
 

© O Inquilino 69 Letras 2017

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